O que é transtorno de pânico

Codificado pela OMS na CID-11 como 6B011, o transtorno de pânico é caracterizado por ataques de pânico recorrentes, que surgem de forma súbita, atingem o pico em minutos e cursam com sintomas físicos intensos: taquicardia, falta de ar, sudorese, tremor, tontura, sensação de irrealidade ou de morte iminente. Após o primeiro ataque, é comum surgirem o medo de novos ataques (ansiedade antecipatória) e mudanças de comportamento para evitar situações associadas (esquiva). A agorafobia agora é codificada separadamente (6B02) e pode ser comórbida1.

~5% da população é afetada por transtorno de pânico em algum momento da vida (prevalência ao longo da vida). — Roy-Byrne PP et al. Panic disorder. The Lancet, 20062

Sinais e sintomas de um ataque de pânico

  • Início abrupto, geralmente sem gatilho claro.
  • Pico em poucos minutos.
  • Quatro ou mais sintomas físicos/cognitivos típicos.
  • Duração total geralmente curta (cerca de 5 a 20 minutos, com pico em poucos minutos), com cansaço residual.

Sintomas típicos: palpitação, falta de ar, dor no peito, tremor, sudorese, calafrios, ondas de calor, tontura, sensação de desmaio, formigamento, "descolar da realidade" (desrealização/despersonalização), medo de morrer ou de "enlouquecer"3.

Quando procurar avaliação

Após o primeiro ataque relevante, vale uma avaliação — tanto para confirmar pânico quanto para descartar outras causas físicas (arritmias, hipertireoidismo, hipoglicemia, uso de substâncias). Quanto antes o tratamento começa, menores as chances de instalação de esquivas crônicas (agorafobia)3.

Como é o tratamento — abordagem baseada em evidências

Avaliação diagnóstica

Investigação clínica para confirmar o quadro e descartar causas físicas. Exames complementares podem ser solicitados conforme indicação.

Tratamentos de primeira linha

A NICE CG113, que cobre tanto TAG quanto transtorno de pânico4, e a APA Practice Guideline for the Treatment of Patients with Panic Disorder5 recomendam como primeira linha:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental focada em pânico (TCC-P): considerada padrão-ouro psicoterápico para pânico, com forte evidência.
  • ISRS — a sertralina costuma ser preferida pelo perfil de tolerabilidade; alternativas em caso de intolerância: outro ISRS, IRSN, ou antidepressivos tricíclicos (imipramina, clomipramina) em casos selecionados.
  • A eficácia de TCC e medicação é comparável; a combinação fica reservada para casos selecionados ou refratários.

Manejo da crise (psicoeducação)

Aprender o que é um ataque de pânico, por que ele acontece e o que NÃO fazer durante uma crise (não correr, não hiperventilar, não esperar "morrer") é parte essencial do tratamento. Reduz o medo do próximo ataque.

O lugar dos benzodiazepínicos

BZDs podem aliviar crises agudas no curtíssimo prazo, mas não são recomendados como tratamento crônico: ISRSs + TCC têm melhor evidência de longo prazo, com menor risco de tolerância e dependência4.

Mitos e realidades

Mito"Vou ter um infarto durante o ataque."
EvidênciaEm pessoas sem cardiopatia, ataques de pânico são autolimitados (geralmente 5–20 min) e não causam dano físico. Mesmo assim, descartar causas físicas é parte da avaliação5.
Mito"Vou enlouquecer."
EvidênciaAtaque de pânico é uma resposta intensa de alarme do corpo. A sensação de "perder o controle" é parte do quadro, mas não corresponde a evento psicótico3.
Mito"Tenho que evitar tudo o que dispara."
EvidênciaEsquiva alivia no curto prazo e piora no médio prazo (instalação de agorafobia). A exposição gradual é parte do tratamento5.
Mito"Rivotril contínuo resolve o pânico."
EvidênciaBZDs aliviam rápido, mas uso crônico é desencorajado por tolerância/dependência. ISRSs + TCC têm melhor evidência de longo prazo4.

Perguntas frequentes

Ataque de pânico pode causar infarto?

Em pessoas sem cardiopatia, ataques de pânico são autolimitados e não causam dano físico. Mesmo assim, descartar causas físicas (especialmente em primeiro episódio) é parte da avaliação.

Por que os ataques voltam mesmo sem motivo?

O transtorno de pânico se sustenta pelo medo da próxima crise (ansiedade antecipatória), que sensibiliza o corpo e dispara novas crises. A TCC focada em pânico interrompe esse ciclo, e ISRSs reduzem a frequência e intensidade.

Tenho que evitar lugares onde tive ataque?

Evitar alivia no curto prazo e piora no médio prazo (instalação de agorafobia). A exposição gradual, com suporte clínico, é parte do tratamento e tem forte respaldo na literatura.

Quanto tempo o tratamento leva para funcionar?

A TCC focada em pânico costuma mostrar resultados em algumas semanas a poucos meses. Medicações de primeira linha (ISRSs) levam de 4 a 8 semanas para o efeito completo.

Próximos passos

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Fontes científicas

Referências utilizadas no conteúdo desta página.

  1. Classificação Organização Mundial da Saúde. ICD-11 — Panic disorder (6B01). icd.who.int
  2. Revisão científica Roy-Byrne PP, Craske MG, Stein MB. Panic disorder. The Lancet, 2006;368(9540):1023-1032. thelancet.com
  3. Revisão clínica MSD Manual Versão para Profissionais. Transtorno de Pânico e Ataques de Pânico. msdmanuals.com
  4. Diretriz clínica National Institute for Health and Care Excellence. CG113 — Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management. nice.org.uk/guidance/cg113
  5. Diretriz clínica American Psychiatric Association. Practice Guideline for the Treatment of Patients with Panic Disorder, 2ª ed., 2009. psychiatryonline.org (PDF)
  6. Diretriz brasileira Associação Brasileira de Psiquiatria — Diretrizes. abp.org.br/diretrizes