O que é depressão

Depressão é um transtorno do humor classificado pela Organização Mundial da Saúde na CID-11 como Episódio Depressivo (6A70) ou Transtorno Depressivo Recorrente (6A71), e descrito de forma equivalente no DSM-5-TR1. Não é tristeza comum, falta de força de vontade ou fraqueza moral. É uma condição clínica que afeta humor, energia, sono, apetite, concentração e a forma como a pessoa se vê e vê o futuro.

Existem formas distintas — depressão maior, transtorno depressivo persistente (distimia, 6A72), depressão como fase de transtorno bipolar, depressão pós-parto — e cada uma orienta um plano terapêutico diferente.

~28% de aumento na prevalência global de depressão maior em 2020, primeiro ano da pandemia de COVID-19, com cerca de 53 milhões de casos adicionais. — GBD COVID-19 Mental Disorders Collaborators, The Lancet, 20212

Sinais e sintomas mais comuns

O diagnóstico segue critérios bem definidos1. Os achados mais frequentes:

  • Tristeza persistente, vazio ou irritabilidade na maior parte do dia, quase todos os dias.
  • Perda de interesse ou prazer em atividades antes apreciadas (anedonia).
  • Cansaço desproporcional ao esforço.
  • Alterações do sono (insônia ou hipersonia).
  • Mudanças no apetite e no peso.
  • Dificuldade de concentração, de decisão e queixas de memória.
  • Sensação de inutilidade ou culpa excessiva.
  • Pensamentos sobre morte, sobre não querer mais existir, ou ideação suicida.

A presença de alguns desses sintomas não constitui diagnóstico por si só. Diagnóstico é ato médico, feito em consulta. Se houver pensamentos de morte ou ideação suicida agora, ligue 188 (CVV), procure a UPA ou o Instituto Raul Soares em BH. Em emergência, 192 (SAMU).

Quando procurar avaliação psiquiátrica

  • Quando os sintomas duram duas semanas ou mais, na maior parte do tempo1.
  • Quando há sofrimento significativo ou impacto em trabalho, estudo ou relações.
  • Quando o quadro recorre após um tratamento anterior.
  • Quando há suspeita de oscilação de humor (episódios de "muita energia" alternados com episódios de "muito baixo") — pode indicar bipolaridade.
  • Quando aparecem pensamentos de morte, mesmo sem plano. Aqui não há "leve" — é indicação imediata de avaliação.

Como é o tratamento — abordagem baseada em evidências

Avaliação diagnóstica

A primeira consulta tem duração de 30 minutos e segue uma sequência: escuta da história, anamnese estruturada, exame psíquico, hipótese diagnóstica, diagnóstico diferencial (descartar hipotireoidismo, anemia, deficiências vitamínicas, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade, transtornos por uso de substâncias) e plano combinado em conjunto.

Psicoterapia como primeira linha em depressão menos severa

A diretriz britânica NICE NG222 (2022)3 recomenda intervenções psicológicas como primeira linha para depressão menos severa, antes da introdução de antidepressivos. As opções com melhor evidência incluem:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) individual.
  • Ativação Comportamental.
  • TCC em grupo.
  • Terapia Interpessoal (TIP).
  • Programas de mindfulness baseados em evidência.
  • Exercício físico estruturado em grupo.

Tratamento combinado em depressão moderada a severa

Para apresentações mais severas, a NICE NG222 recomenda combinação de TCC individual com antidepressivo — geralmente um ISRS — ou cada um isoladamente, conforme preferência e perfil clínico do paciente3.

Escolha do antidepressivo

A meta-análise em rede de 21 antidepressivos publicada na The Lancet (Cipriani et al., 2018)4 demonstrou que todas as moléculas avaliadas foram mais eficazes que placebo no tratamento agudo, com tamanhos de efeito moderados. A escolha leva em conta perfil de efeitos colaterais, comorbidades, interações medicamentosas e preferência do paciente.

Acompanhamento e duração

A resposta clínica geralmente aparece entre 2 e 6 semanas após o início do antidepressivo3. A NICE recomenda manutenção do tratamento por pelo menos 6 meses após remissão, com avaliação periódica do risco de recorrência. A retirada, quando indicada, é planejada e gradual.

O que esperar da consulta

  • Tempo: primeira consulta com duração de 30 minutos.
  • Linguagem: diagnóstico e plano explicados em palavras claras, sem jargão.
  • Decisão compartilhada: as escolhas terapêuticas são discutidas com você.
  • Sigilo: a relação médico-paciente é protegida pelo Código de Ética Médica.

Mitos e realidades

Mito"Antidepressivo vicia."
EvidênciaISRSs e IRSNs não causam dependência no sentido farmacológico. Podem ocorrer sintomas de descontinuação se a retirada for abrupta — diferentes de adição. Por isso a retirada é gradual3.
Mito"É só ter força de vontade."
EvidênciaDepressão tem bases neurobiológicas e genéticas; herdabilidade estimada em torno de 30-40%5. Esforço pessoal ajuda, mas não substitui tratamento.
Mito"Tratamento é para o resto da vida."
EvidênciaTratamento típico de manutenção dura ≥ 6 meses após remissão; duração total depende do quadro e do risco de recorrência3.
Mito"Antidepressivo funciona em 2 dias."
EvidênciaResposta clínica relevante geralmente em 2 a 6 semanas; alguns sintomas (sono, apetite) podem melhorar antes do humor3.

Quando não é depressão

Vários quadros podem se parecer com depressão sem ser: hipotireoidismo, anemia, deficiência de vitamina B12 ou D, transtorno bipolar em fase depressiva, transtornos de ansiedade, transtorno por uso de substâncias, luto não complicado, transtorno de adaptação. O diagnóstico diferencial é parte da avaliação inicial5.

Perguntas frequentes

Antidepressivo vicia?

ISRSs e IRSNs modernos não causam dependência no sentido farmacológico. Podem causar sintomas de descontinuação se a retirada for abrupta — por isso a retirada é sempre gradual e supervisionada (NICE NG222).

Quanto tempo dura o tratamento?

A resposta clínica geralmente aparece entre 2 e 6 semanas. O tratamento de manutenção dura pelo menos 6 meses após remissão dos sintomas, conforme NICE NG222 e Practice Guideline da APA. Não é regra ser para o resto da vida.

Posso fazer só psicoterapia, sem medicação?

Sim — em depressão menos severa, NICE NG222 recomenda intervenções psicológicas (TCC individual, ativação comportamental, terapia interpessoal) como primeira linha, antes de antidepressivos. Em quadros mais severos, a combinação costuma ser superior.

E se eu já tomei antidepressivo antes e não funcionou?

Vários fatores podem explicar — dose subterapêutica, tempo insuficiente, escolha da medicação, diagnóstico que merecia revisão, comorbidades não tratadas. Uma reavaliação criteriosa costuma encontrar uma estratégia diferente.

Depressão tem cura?

Em muitos casos, o quadro entra em remissão completa e a pessoa volta ao funcionamento habitual. Em outros, há tendência a recorrência, e o tratamento foca em reduzir a frequência e a intensidade dos episódios — o que é alcançável.

Próximos passos

Se você reconheceu sintomas seus ou de alguém próximo, agendar uma avaliação é um passo razoável e informado. O agendamento é feito pelo WhatsApp (31) 98230-6776.

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Fontes científicas

Referências utilizadas no conteúdo desta página. Verificadas em maio de 2026.

  1. Classificação Organização Mundial da Saúde. ICD-11 — Mood disorders (6A70–6A7Z). icd.who.int/browse/2024-01/mms/en
  2. Epidemiologia COVID-19 Mental Disorders Collaborators. Global prevalence and burden of depressive and anxiety disorders in 204 countries during the COVID-19 pandemic. The Lancet, 2021. thelancet.com
  3. Diretriz clínica National Institute for Health and Care Excellence. NG222 — Depression in adults: treatment and management, 2022. nice.org.uk/guidance/ng222
  4. Meta-análise Cipriani A, Furukawa TA, Salanti G, et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet, 2018;391(10128):1357-1366. thelancet.com
  5. Revisão clínica MSD Manual Versão para Profissionais. Transtornos depressivos. msdmanuals.com
  6. Saúde pública Organização Mundial da Saúde. Depression — Fact Sheet. who.int
  7. Diretriz brasileira Associação Brasileira de Psiquiatria — Diretrizes. abp.org.br/diretrizes