O que é insônia

Insônia é a dificuldade persistente para iniciar o sono, mantê-lo ou ter um sono que descansa, com impacto no dia seguinte. A CID-11, em seu novo capítulo de transtornos do sono-vigília1, classifica:

  • Insônia crônica — CID-11 7A00 — duração ≥ 3 meses, com ocorrência ≥ 3 noites por semana.
  • Insônia de curta duração — CID-11 7A01.

É a queixa de sono mais comum na prática clínica.

Tipos e formas

  • Insônia de início (dificuldade para "pegar no sono").
  • Insônia de manutenção (acordar várias vezes, dificuldade para voltar a dormir).
  • Despertar precoce.
  • Insônia primária x insônia secundária (a um transtorno mental, doença física, medicação, uso de substâncias, condição ambiental).

Quando procurar avaliação

  • Quando a insônia se cronifica (≥ 3 meses).
  • Quando há sintomas de ansiedade ou depressão associados.
  • Quando há dependência de medicamento para dormir.
  • Quando há suspeita de apneia do sono (ronco intenso, pausas respiratórias, sonolência diurna).

Como é o tratamento — abordagem baseada em evidências

Avaliação completa

Hábitos de sono, rotina, uso de telas, cafeína, álcool, exercício, ambiente, comorbidades. Quando há suspeita de transtorno respiratório do sono, encaminhamento para polissonografia.

CBT-I como primeira linha

A diretriz da American Academy of Sleep Medicine (AASM), conduzida por Edinger et al. e publicada em 20212, faz recomendação forte para a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I) como tratamento de primeira linha em adultos com insônia crônica. Componentes recomendados:

  • Controle de estímulos — restabelecer a associação cama/sono.
  • Restrição de sono — limitar tempo na cama para consolidar o sono.
  • Terapia de relaxamento.
  • Reestruturação cognitiva (pensamentos disfuncionais sobre o sono).
  • Educação em higiene do sono (como adjuvante, não isolada).

CBT-I tem evidência igual ou superior a medicamentos no curto prazo, e efeito mais duradouro2.

Higiene do sono

Conjunto de práticas: horário regular, exposição à luz natural pela manhã, redução de telas à noite, redução de estimulantes, ambiente adequado. Adjuvante — sozinha não trata insônia crônica.

Tratamento farmacológico, quando indicado

A AASM (Sateia et al., 2017) faz recomendações condicionais para hipnóticos específicos quando CBT-I é insuficiente, indisponível ou recusada. "Remédio para dormir" não é primeiro passo; quando indicado, o uso é planejado, com tempo definido e plano de retirada3.

Tratamento de comorbidades

Ansiedade, depressão, transtornos respiratórios do sono. Sem tratar a causa, a insônia recidiva.

Mitos e realidades

Mito"Todos precisam dormir 8 horas."
EvidênciaNecessidade individual varia (em geral 7-9h em adultos); o critério clínico é o impacto funcional, não a duração isolada.
Mito"Hipnótico é o melhor tratamento para insônia crônica."
EvidênciaCBT-I é primeira linha, com recomendação forte da AASM. Hipnóticos são adjuntos ou para uso transitório2,3.
Mito"Beber álcool ajuda a dormir."
EvidênciaÁlcool reduz a latência mas fragmenta o sono na segunda metade da noite e piora a qualidade4.
Mito"Se tomar remédio para dormir, fico dependente."
EvidênciaDepende da classe e do uso. Há classes com risco real (benzodiazepínicos, Z-drugs); outras com risco baixo. Uso planejado, com tempo definido3.

Perguntas frequentes

Insônia é doença ou consequência de outra coisa?

Pode ser as duas. Há insônia primária (transtorno em si — CID-11 7A00) e insônia secundária a outras condições. A avaliação separa as situações.

Tomar remédio para dormir vicia?

Depende da classe e do tempo de uso. Hipnóticos benzodiazepínicos e Z-drugs têm risco real de tolerância e dependência; outros, risco menor. AASM recomenda hipnóticos apenas como adjuntos ou para uso de curta duração.

O que é TCC para insônia (CBT-I)?

É uma abordagem específica, com componentes definidos (controle de estímulos, restrição de sono, relaxamento, reestruturação cognitiva). Tem recomendação forte da AASM como primeira linha para insônia crônica.

Devo usar melatonina?

Em casos específicos pode ajudar (especialmente em distúrbios circadianos). A dose, o horário e o tempo de uso variam conforme o objetivo. Não é "remédio para qualquer insônia".

Quando suspeitar de apneia do sono?

Ronco intenso, pausas respiratórias relatadas por companheiros, sonolência diurna desproporcional, dor de cabeça matinal, dificuldade de concentração. Nesses casos, polissonografia costuma ser solicitada.

Próximos passos

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Fontes científicas

Referências utilizadas no conteúdo desta página.

  1. Classificação Organização Mundial da Saúde. ICD-11 — Sleep-wake disorders (Chapter 7). icd.who.int
  2. Diretriz clínica Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2021;17(2):255-262. PMC (acesso aberto)
  3. Diretriz clínica American Academy of Sleep Medicine — Clinical Practice Guidelines (incluindo Sateia et al., 2017 — Pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults). aasm.org
  4. Revisão clínica MSD Manual Versão para Profissionais. Insônia e sonolência diurna excessiva. msdmanuals.com
  5. Diretriz NICE (UK) National Institute for Health and Care Excellence. Insomnia — Clinical Knowledge Summary. cks.nice.org.uk
  6. Sociedade brasileira Associação Brasileira do Sono (ABS). absono.com.br